sábado, 24 de setembro de 2022

Pintura, almoço e desafios

O dia amanheceu com uma chuva absurda... Estava chovendo desde a madrugada, sem parar. Acordei umas 05:30 por causa da chuva e não consegui dormir mais. O curioso foi quando por volta das 6:30 veio um barulho super forte (não lembro se trovão ou chuva no telhado), todos acordaram e não voltamos a dormir!

Ficamos fazendo hora para ver se a chuva amenizava para irmos para a parte onde comemos. Estava chovendo tanto que a maioria (incluindo eu) nem teve coragem de ir ao banheiro. Lembram que eu falei ontem que o banheiro fica fora? Pois então, e estava tudo muito cheio de lama...

Quando a chuva amenizou um pouco, subimos para tomar café da manhã com o resto do grupo. Joel fez panqueca para nós, e estava uma delícia!!! Passamos o resto da manhã na área de convivência, não fomos fazer a trilha que estava programada por causa da chuva, e sábado a escola estava sem aulas.

Por volta das 11:30 vivenciamos mais uma experiência maravilhosa: fomos almoçar em uma casa tipicamente nepalesa, com uma família local. O cardápio foi o tradicional Dal Bhat, com frango! Comemos todos sentados, descalsos e de mão (direita), como manda a tradição. Sim, a comida tinha guere guere, mas comi boa parte! Alguns fatos interessantes tanto da casa quanto da família:

• A casa não tem nada de cimento. Segundo Shamser, as casas típicas nepalesa mais antigas  são assim, construídas apenas com material natural (barro, palha, etc). 

• A família tem vários animais, tanto de estimação (coelho, pombos) quanto para alguma finalidade relacionada à comida (cabra, búfalo, frango...). O curioso é que eles tem uma casinha para os pombos dentro de casa!

• Nas casas clássicas com um ou no máximo 2 cômodos, eles dormem "na" cozinha, para ficarem perto do fogo e se aquecerem no inverno.

• Enquanto estávamos lá, só estava a dona da casa, quem fez a comida (não consegui entender o nome dela) e o sogro dela. Na casa moram 5 pessoas e ela estava nos contando que ela se casou por amor, não casamento arranjado. Por isso não teve festa / celebração e ela e o marido tiveram que "fugir", passar um tempo fora até que a comunidade e família aceitassem a união.

Depois dessa nova imersão cultural, fomos para a escola trabalhar! Hoje, com os alunos fora, fomos pintar a faixada de uma das construções. Além da parede, minha blusa e minha calça também estão bem pintadaa... KKKKK A primeira eu trouxe exatamente pra isso, e vai ficar. Já a segunda, vou ter que dar um jeito depois de limpar!

Ao terminarmos, voltamos para onde estamos dormindo, tomamos banho, jantamos e ficamos todos jogando UNO até umas 22h...VÁRIAS risadas!

Até hoje eu não tinha falado sobre um dos maiores desafios que estou tendo aqui no projeto porque eu queria dar destaque às experiências boas, à viagem em si. Mas hoje preciso compartilhar... A convivência com os bichos e insetos realmente é algo que tem que aceitar e seguir em frente. Desde os que estamos acostumados (baratas, mosquitos, aranhas, mariposas, bicho de chuva - não lembro o nome), até os não tão comuns assim (ratos, sanguessugas, lesmas "gigantes")... Alguns deles estão no quartos, outros nos banheiros, outros nos caminhos. Eu já tive a experiência tanto de ir ao banheiro quanto de tomar banho olhando para a lesma gigante, já matei algumas aranhas diferentes, além de participar das caçadas no quarto. Temos que fazer sempre a inspeção no banheiro antes de entrar, já pegamos uma sanguessuga subindo no vaso. Resolvi falar sobre isso porque, só hoje, 5 pessoas foram contempladas com mordida de sanguessuga, e na hora de dormir, ao fazermos o ritual de busca por bichos, tivemos que caçar uma aranha relativamente grande, uma batata, e uma mariposa (além dos insetos normais)... Sim, desafios que fazem parte do pacote!

Clara, escrevendo sobre o dia 24 de setembro de 2022, sábado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Chuva e Heaven Hill

Hoje foi um dia curioso... Com muita chuva e muita reflexão.

Ao sair do quarto, dei de cara com os Himalaias. Aqui, eles são muito mais aparentes do que na primeira escola. Não durou muito tempo porque logo ficou nublado, mas deu para ver um pouco.

Começamos o dia com uma dinâmica de grupo, entre os voluntários. Fizemos, em grupo, a meditação Hare Krishna. Claro que escolhemos sentar em um lugar que tivesse vista para as montanhas. A dinâmica durou uns 30 minutos. E foi bem bacana. Quando terminamos, que eu abri os olhos, tinham algumas crianças paradas olhando para nós...

Como a escola está na semana de provas / exames, não adiantava chegar lá cedo. Então, fizemos um tour com Shamser (sim, o "big boss" estava conosco) pela redondeza e aprendemos algumas coisas interessantes:

• A casa em que estamos dormindo é típica nepalesa, um único cômodo, redonda, feita de pedras. O bacana é que as camas estão dispostas de forma circular, com isso todos conseguem ver e interagir com todos. O banheiro fica em outra casinha, do lado de fora. 

• O lugar em que os voluntários ficam não é dentro da escola, como em Marigold, é em outro complexo de construção a uns 8 minutos da escola. A construção principal, onde comemos e onde fica a área de convivência, é onde Shamser nasceu e mora até hoje. 

• Perto tem um vilarejo bem pequeno, e mesmo assim tem umas 3 pagodas e 1 estufa pequena budista. Uma dessas pagodas é Radha Krishna Temple, acho que por isso a dinâmica no início do dia foi tão forte. 

• Além dessas 3 pagodas, pelo que entendi alguma família real nasceu e viveu na região. Com isso, passamos também por um pequeno Palácio Real com sua praça, Lamjung Durbar, e seu próprio templo, Lamjung Kalika Temple. Ou seja, comprovamos mais uma vez como no tempo em que Nepal era formado por vários reinos, cada um tinha sua praça (Dubar), com seu Palácio Real e complexo de templos. 

• No caminho passamos por um riachozinho MUITO fofo! Nele, tinha uma estrutura de concreto onde os reis/rainhas se banhavam.

Chegamos na escola, a Heaven Hill. A estrutura é completamente diferente da de Marigold. Eu diria que é mais "armengada" (gambiarra, para os não baianos). Isso porque o terreno é menor e deu a impressão que as coisas foram sendo construídas aos poucos, nos espaços que existiam. Fatos curiosos:

• Hoje a escola tem umas 230 crianças. 

• No passado houve uma enchente imensa perto da escola, no caminho de um vilarejo, durante a qual algumas crianças pequenas morreram porque estavam indo a pé e sozinhas para a escola, e era muito pequenas pra poderem "se salvar". Com isso, Shamser construiu um jardim de Infância pequeno nesse vilarejo para que os pequenos não precisem ir andando até a escola e correr o mesmo risco. Quando eles crescerem, vão para o Heaven Hill. 

• A escola possui 3 alunos com síndrome de Dow e 1 aurista. Antes, essas crianças ficavam, literalmente, presas dentro de casa pois ninguém sabia como lhe dar com ela. Shamser convenceu as famílias para levarem as crianças à escola e hoje elas são integradas.

• Hoje Shamser está tentando construir uma biblioteca na escola. Ele já montou a estrutura mas, como está sendo construída com dinheiro próprio ou doações esporádicas, a construção está lenta. A ideia é tê-la aberta 24 horas, todos os dias. Durante o período escolar, abrir apenas para os alunos da Heaven Hill e, nos outros horários, abrir para a comunidade.

Fizemos a aula sobre Primeiro Socorros. Foi bem mais interativo do que na primeira escola. Depois ficamos sabendo pelo Ben (o americano voluntário que também estava em Marigold) que aqui na Heaven Hill as crianças falam inglês melhor e estão mais acostumados com estrangeiros voluntários. Voltando para a aula, foi divertido pois desta vez chamamos diversos alunos para simular cada uma das situações. No final, chamamos um dos professores, e os alunos riram horrores!

De lá fomos para a sala dos pequenos. A sala é LOTADA, e pequena! Mau aparecemos e já nos chamaram para participar, interagir, dançar... Uns queridos!

Por fim, não podia faltar: aqui também tem o "processo disciplinar", mas um pouco diferente. Tem uma outra música no lugar de "cabeça, ombro, joelho e pé", a segunda música é Macarena igual à Marigold e, na parte dos movimentos, a sequência é diferente (sim acompanhei tantas vezes que consegui identificar diferenças... KKKKKK).

Voltamos para almoçarmos com o intuito de à tarde retornar à escola para começar a pintura. Quem disse? Caiu um toró, uma chuva absurda, que não tinha condições de ir para a escola e/ou de fazer qualquer atividade lá. Com isso, fomos todos para a casa redonda, fizemos outra dinâmica de grupo e jogamos alguns jogos divertidos.

De noite, após o jantar, o grupo de mães da escola foram lá para fazerem uma apresentação para nós. Foi interessante, até que depois de 30 minutos vimos que seria sempre a mesma música, com apenas 1 dançando (elas se revezavam), e a dança também sempre a mesma... Aí, para mostrar algo em português / do Brasil, dançamos "Olha a Onda" (MICOOOO). Sabemos que é antiga, mas é uma música / dança que todos sabiam e é boba, não afetaria eles ou a cultura nepalesa... No final, elas trouxeram um presentinho para nós: pintaram nossas testas e colocaram um lenço no nosso pescoço. Ainda não sei o significado disso, mas foi bem bonito e bacana!

Clara, escrevendo sobre o dia 23 de setembro de 2022, sexta-feira.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Rumo à segunda escola

Bom dia!!! Dia de aventura rumo à segunda escola, Heaven Hill. Da Marigold dá pra ver ela, mas é no topo da montanha do outro lado do rio....

Acordamos cedo, tomamos café, fui lavar os pratos (tem revezamento e era minha "escala"), juntamos as roupas e fomos pegar o ônibus para Besisahar. Antes de irmos, ao nos despedirmos dos voluntários que estavam na escola, me surpreendi com a declaração da russa. Nós tivemos pouquíssimo contato com ela. Primeiro, ela estava em voto de silêncio. Depois, era o jeito dela mesmo... Enfim, quando ela veio se despedir, ela fez um discurso lindo, dizendo que não interagiu muito por ser tímida, mas que ela tinha gostado de ter nos conhecido, de ver nossa alegria / alto astral o tempo inteiro, e que tinha aprendido conosco. Foi bem fofa! E Alina, a alemã... Outra fofa! Sentirei falta dela!

Pegamos um ônibus regular da região, então vocês imaginam como foi raíz / exótico. Como foi cedo (9h), fomos os primeiros a entrar no busu, e pegamos os lugares perto de janela aberta. Ainda bem, pois pensem em um dia com sol a pino, em um ônibus com poucas janelas e lotado... Estávamos pingando de suor logo nos primeiros 25 minutos...  Rapaz... Pensem numa viagem peculiar... Cadeira bem dura, joelho batendo no banco da frente, sem cinto de segurança (para quê?), as malas no meio do ônibus, sem qualquer ventilação... Para completar, uma estrada maravilhosa!!! O único trecho que vi um protótipo de asfalto foi em uma região do exército. Fora isso, terra, pedregulho, buracos... Sacolejo o tempo inteiro, parando de tempos em tempos para pessoas entrarem e saírem... Bem raíz mesmo!

Chegamos em Besisahar, deixamos as malas em um hotel, e fomos almoçar em um restaurante que tinha batata frita, pizza, hambúrguer... KKKKKKK Posso dizer que matamos a saudade de comidas ocidentais! Detalhe, pedimos pizza de queijo e, quando chegou, estava CHEIA de guere guere... Vocês imaginam minha cara... Parecia uma pizza vegetariana... Mas aí perguntei se rolava uma pizza só de queijo, e deu certo. Depois fomos no mercado, compramos algumas coisas e fomos para o hotel para pegar as malas e o ônibus.

A estrada do segundo trecho foi menos pior do que a do primeiro. Mas o ônibus estava bem mais lotado, tanto que nossas malas foram em cima. Outra coisa que foi diferente foi a trilha sonora... Ligaram o rádio, alto, e o trecho inteiro foi com música nepalesa. Logo quando entramos no ônibus, fomos direto para o fundão.  Aí foi aquela zoeira, com dança e cantando música. Quando olhamos pra frente, os nepaleses não só estavam olhando como também estavam rindo e dançando junto...

Chrgamos na escola e fomos nos organizar no quarto. A estrutura é pior do que a escola anterior, com muito mais bichos... Ao mesmo tempo, tem banho quente! Como tudo na vida, tem lado bom e ruim! Jantamos e fomos dormir (ou tentar dormir)!

Clara, escrevendo sobre o dia 22 de setembro de 2022, quinta-feira.